sábado, 22 de março de 2014

NATAN CASTRO ENTREVISTA FERNANDO ATALLAIA PARA O BLOG TEMPO DE MÚSICA

Entrevista - Fernando Atallaia (Parte II)  


Segunda parte da entrevista desse artista que é tido por alguns como o mais prolífico de uma geração e por outros como um verdadeiro pária, detentor de uma visão bastante critica sobre diversos assuntos, dentre eles a cultura. Assunto esse que é a tônica dessa segunda parte da entrevista concedida a Natan Castro. 

Blog Tempodemúsica- Já tem algum tempo que você vem divulgando em seu blog, e em alguns jornais da grande Ilha o Movimento Baluarte. Do que trata esse movimento e quais são os outros integrantes, além de você mesmo?



Fernando Atallaia- O movimento foi fundado por mim em 2010, e contou com um lançamento oficial no projeto ''Canto da Ema'', à época com sede em Paço do Lumiar. Acreditamos ser o Baluarte o único movimento de caráter reflexivo e afeito ao debate cultural no estado, e com a capacidade de pensar as artes e o fenômeno cultural sob os mais diversos prismas. Há um manifesto igualmente lançado, onde há a síntese englobadora de nossas intenções. Além de mim, nomes expressivos da modernidade artística maranhense integram o MSCB( sigla para Movimento da Mobilização social e Cultural Baluarte), a exemplo dos cantores e compositores Fábio Allex, Santa Cruz, Célia Leite, Allysson Ribeiro, Fran Moreira,Well Matos,  Riba Salgueiro, Marcos Boa Fé, Célia Sampaio. Só para citar alguns. Há representantes também nas cidades de Raposa, Pinheiro, São José de Ribamar, Alcântara, Caxias, Paço do Lumiar e Pedreiras. 



Blog Tempodemúsica- A música produzida no Maranhão começou a ser denominada por alguns no início dos anos noventa, como “MPM”. Sendo a mesma uma regionalização da sigla nacional conhecida como “MPB”, gostaria que você falasse da sigla e nos dissesse em que ponto ela se difere de outra sigla criada por você, a “MPU”?
Fernando Atallaia- O Movimento Baluarte repudia essas designações grosseiras e limitativas. Quando lançamos a MPU, que significa Música Popular Universal, foi justamente como maneira de mostrar o quanto se pensou de forma medíocre o fazer musical no Maranhão. É uma forma de dizer não a essas nomenclaturas escrotas que tentam reduzir o artista do estado a uma configuração pequena. À própria pequenez. Diga-me, você já ouviu falar algum dia em MPC, Música Popular Carioca? A resposta é não. Mas aqui no Maranhão foi colocado e colou. E o que nós ganhamos com isso? A nefasta posição contrária de nosso povo e seu niilismo por nossa musicalidade. Sua negação. Nosso movimento é contra esse reducionismo. Essa coisa de música maranhense não existe. Nunca existiu, assim como não existe MPI, Música Popular Irlandesa, por conseguinte, não existe MPB. Esse protecionismo é bobo, imaturo e atrapalha na construção de uma real dimensão de nossa portentosa cultura musical. Em contrapartida, agora todos tem a MPU, que pode ser ao mesmo tempo a música do Maranhão e o Folk norte-americano; a música Celta e o Samba brasileiro. A quem acha que essa discussão acaba no campo da estética, gostaria de dizer que estamos falando da deflagração de uma realidade que nos foi usurpada, ultrajada, roubada. Sempre nos privaram do direito de  ser universal.  Podaram-nos e aceitamos. O movimento Baluarte indica o caminho para um despertar. Para a consciência multicultural num estado onde a música folclórica  impera como símbolo  maior de nossa representatividade. O que é uma grande mentira. 



Blog Tempodemúsica- O Maranhão é reconhecido atualmente como o Estado que possui a maior diversidade de ritmos do Brasil. Ainda no século XIX era conhecido como Atenas Brasileira, haja vista a quantidade de intelectuais que surgiam vindos dessas terras. Em 2007 o tambor de crioula foi alçado a patrimônio cultural imaterial Brasileiro, temos dois dos maiores poetas brasileiros da atualidade Ferreira Gullar e Nauro Machado, fora as demais personalidades que se sobressaem no campo da cultura, todos filhos do Estado. Em face dessas constatações qual seria a causa, se é que existe uma ou várias, que fazem o Estado não possuir um lugar de expressão na cultura no âmbito nacional nos dias atuais?  


Fernando Atallaia- Essas ‘’honrarias’’, homenagens e mesmo a nossa diversidade rítmico-musical nunca atuaram como protagonistas do espetáculo. Esta é a razão. Nossas expressões mais ricas sempre foram utilizadas ao bel prazer daqueles que vez por outra se utilizam delas como pano de fundo para a construção de um marketing ilusório.  Diferentemente de estados como Bahia, Pará e Pernambuco, onde alguns governos investiram na Cultura, concebendo o seguimento como força autóctone, livre e área emblemática da governabilidade. Haveria de ter, claro, um esforço conjunto e agregador que na prática teria de mobilizar a indústria cultural( fonográfica, editorial, e de marketing cultural) ao lado das políticas públicas para Cultura, para se iniciar o processo de chegada a este âmbito. Agora falar nestes termos num estado onde se aprisiona o seguimento em ridículos dois únicos momentos,  e dentro da parca promoção de eventos é no mínimo patético. Qualquer indivíduo sem o mínimo de consciência do que acontece em nossa capital , em nosso estado, saberá conhecer o Maranhão pelo Carnaval e São João, duas datas que  hoje são tidas  como sendo a voz da cultura e dos artistas de todo um estado, rico, literária e artisticamente, como você bem frisou. Aí a mim, eu pergunto: nossa Música Erudita, não existe? Nossas bandas de Rock in Roll não existem? Nossas Artes Plásticas não existem? E a nossa Dança, o nosso Teatro? Vou ficar por aqui. Porque boa parte dessa infame realidade imposta por nossos governos tem muita conivência de alguns viciados em alimentar essa cultura do Pão e Circo. Então, é simples.  Enquanto este conceito não mudar, não teremos essa tão esperada representatividade nacional. Esse estopim cultural que já deveria ter acontecido desde os anos 70. 



Blog Tempodemúsica- A qualidade de nossos compositores é conhecida por muitos há bastante tempo. No final dos anos sessenta e inicio dos anos setenta vimos a música da Bahia e logo depois a de Minas Gerais explodindo no cenário musical brasileiro, nos anos oitenta tivemos o rock de Brasília, nos noventa tivemos a explosão do Mangue Beat em Recife e atualmente a música Paraense vive seu apogeu de reconhecimento. A seu ver a música maranhense será a próxima? Ou não? Por que ainda não chegou a hora?  E qual seria a bola vez?

Fernando Atallaia- A exaustivamente intitulada música maranhense não tem vez pelo simples fato de ela nem sequer existir. Música é música e sempre retorna ao seu conceito originário. Música é combinação de sons, vozes, intenções, e música popular é diálogo com o povo, com o público. O que a música produzida hoje no Maranhão tem de relação dialógica com o seu público, com as pessoas, com o seu povo? Absolutamente nada ou quase nada. Uma música ‘’explode’’ em seu próprio estado quando representa as aspirações de seu povo e não as conveniências de seus governantes. Veja, o Manguebeat. Os recifenses, os pernambucanos veneram, protegem e foi sucesso lá, primeiramente. Em nosso estado há bons compositores, mas eles são espinafrados pelas secretarias, pela má vontade, pelas burocracias, pelos governos. Em outros estados já seriam ídolos e viveriam de sua arte musical. Aparições isoladas não vão resolver e minimizar o problema.  Estamos no olho do furacão. No centro de um problema sério. De um problema cultural que deve ser pensado sob pena de nossas maiores expressões musicais e artísticas não fornecerem ao seu tempo e à posteridade o que construíram ao longo de suas vidas como legado. Somos um estado que não dar a mínima para a memória musical e carreiras como as  de Alcione, Rita Ribeiro, Dilú Melo, Zeca Baleiro, João do Valeu e alguns outros  pertencem ao plano isolado da produção fonográfica, portanto não nos representam.

Blog Tempodemúsica- Temos duas instituições uma do Estado (SECMA) e outra da cidade de São Luis (FUNC), responsáveis pelo fomento da cultura no Maranhão. Qual sua opinião sobre os trabalhos das duas e qual papel elas vem desempenhando na disseminação da cultura em nosso Estado.
 Fernando Atallaia- Não fomentam, nem desempenham papel algum. Abrem as pernas para os artistas de outros estados a quem pagam com nosso dinheiro cachês exorbitantes, e dão migalhas para os seus próprios artistas a quem deveriam gerir, respeitar e nutrir. São instituições que gravitam em torno da política de seus mandatários e não apresentam um projeto contínuo, consistente e permanente à classe artista para quem, em tese, deveriam trabalhar. São duas instituições que operam com a mesma lógica e o mesmo conceito que é o de destratar os artistas de nosso estado lhes oferecendo o mínimo e dando o máximo aos das outras regiões. É aquela velha prática do endeusamento daquilo que pode ser vendido como bom  para a população local. Como a ‘’grande atração’’. Essas secretarias são guiadas pelos meios. Quero dizer, meios de comunicação. Deu no The Voice, contrata. Deu no Big Brother, contrata. É por aí. Ambas não tem compromisso algum com o fortalecimento de nossa identidade musical, sua viabilidade e sua difusão.
Blog Tempodemúsica- Gostaria que você comentasse a influência que a política propriamente dita, tem sobre a classe cultural do Estado. E também explicasse porque duas datas, a primeira o Carnaval e a segunda os Festejos Juninos parecem depois de uma análise nocivas à cena cultural do Estado.
 
Fernando Atallaia- A grande maioria dos artistas maranhenses quer dignidade, respeito e quer viver da música que produz. Acontece que o estado não propicia isto e para adestrar a todos, ainda se valendo do que ele mesmo ( estado) cria, passa uma ideia falsa de oportunidade. Tocar no São João e no Carnaval, seriam duas oportunidades. Há também, uma ala de artistas que há muito não são artistas ou talvez nunca o tenham sido, são burocratas, fazem parte do sistema de exclusão cultural dos governos, por essa razão se sentem confortáveis. Uma aprazibilidade perigosa para um estado que não é reconhecido, nem tampouco respeitado por seu povo, ao menos musicalmente. Ouço uma frase há décadas que diz ‘’ tira esse disco daí, isso é música maranhense, não presta’’. A gente ouve isso, todos os dias. Geraram para o público maranhense uma ojeriza à sua própria música, à sua revelia, coisa intencional. E de quem é a culpa? De quem estar lá e que poderia fazer alguma coisa, mas não faz. O cara é cooptado, se cala, ouve ‘’Calcinha com Vinagre’’, Mocotó do Forró’’ o dia todo na Secretaria, mas dentro do carro tira onda de intelectual, vai ouvir Heitor Villa-Lobos, dar uma de agente cultural, vai ler meu blog. Esse dualismo tem levado o Maranhão para o fundo poço e não é de hoje. Mas isso é na superfície. Obviamente, que há engrenagens muito mais pesadas que obstruem de forma direcionada a passagem para a verdadeira condição de grande musicalidade que nós somos. 

Blog Tempodemúsica- Fala-se hoje na formação de uma frente com alguns poucos artistas como você, tal frente teria a missão de fazer o resgate de artistas maranhenses do passado em diversas áreas da cultura. Visando também um encontro de gerações haja vista que muita gente da nova geração desconhece tais nomes. De que forma esse encontro se dará e o que todos os envolvidos esperam do projeto? 
Fernando Atallaia- Eu não sei nem saberia exatamente sobre esta frente. Acho que a palavra em si é meio fantasmagórica, abstrata demais e até golpista. Me propuseram isto uma vez, liderar uma frente e eu não topei. Disse não de cara. É como se uma turma fosse salvar a nossa Cultura em uma semana. Acho pejorativo, surreal. Frente, eu não concebo. Mas nós do MSCB estamos sim nos reunindo e nossos posicionamentos são sempre pautados em nosso Manifesto. O problema da Cultura do Maranhão passa, a meu ver, por ausências gritantes. Precisamos formar público/plateia para nossa música e arte autorais. Precisamos fortalecer nossa identidade cultural com ações sistemáticas e permanentes. Precisamos descentralizar nossa musicalidade em forma de shows para os bairros periféricos e precisamos, sobretudo, acabar com as ‘’pequenas corrupções’’ culturais nas instituições. Aquela coisa de se inserir quem tem  mais a ver com suas convicções pessoais em detrimento do conjunto. Esse espírito de ‘’amizadezinha’’, de panelinha precisa ser expurgado o quanto antes. Faz-se necessário em caráter de emergência o resgate de nossa memória musical e,  claro, a contemplação de nossa modernidade. Esse elo precisa ser construído. Falta apoio para a rapaziada que está fazendo som atualmente na cidade, fazendo Poesia, Escultura, arte em geral. Falta apoio e tudo o mais. Mas certamente não faltará apoio aos shows vindos de outros estados e que serão  comprados à preço de ouro pelas secretarias de cultura do estado e da capital no próximo evento organizado por  ambas. Disso, você pode ter certeza. Mas é contra essa postura que devemos reagir. Todos ganharão. Esperamos que o debate se acirre e que mais e mais pessoas, artistas ou não participem.

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sábado, 15 de fevereiro de 2014

QUEM TEM MEDO DE MULHER PELADA?

Quem tem medo de mulher pelada?

Azul é a cor mais quente: Rico em trama e criações estéticas, filme de Abdellatif Kechiche é atacado por suposto estímulo ao voyerismo. Alegação é tola

José Geraldo Couto, blog do IMS

Assim como O último tango em Paris ficou famoso – e estigmatizado – por causa da “cena da manteiga”, Azul é a cor mais quente está ganhando fama e estigma por causa de uma longa cena de sexo entre as duas protagonistas, Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux). Falaremos dessa passagem mais adiante. Por enquanto, cabe dizer que o filme de Abdellatif  Kechiche é muito maior do que os tão falados minutos de sexo sáfico, mas não pode ser compreendido plenamente sem eles.

Reduzido ao entrecho mais básico, Azul é a cor mais quente conta uma história de amor quase trivial, do tipo “boy meets girl etc.”, só que mudada para “girl meets girl etc.”, o que faz toda a diferença. Mas não é só essa mudança de gênero, ou de orientação sexual, que torna o filme mais rico e interessante que um drama amoroso convencional. É, principalmente, o modo como ele observa os personagens e suas transformações – em particular Adèle, que começa a narrativa como uma menina e termina como uma mulher.

Romance de formação

Esse processo de transformação se dá em paralelo – ou amalgamado – com a busca de identidade da protagonista. Identidade sexual, claro (pois ela encontra o primeiro grande amor numa mulher alguns anos mais velha, e muito mais vivida, depois de um experimento insatisfatório com um rapaz), mas também social, intelectual, político. Nesse sentido, é mais um “romance de formação”, ou uma “educação sentimental”, do que meramente uma história de amor.
O título original francês (La vie d’Adèle) é uma referência evidente ao livro que a protagonista lê na escola no início do filme (La vie de Marianne, de Pierre de Marivaux). E não deixa de ser interessante o paralelo subterrâneo que se estabelece entre a ascendência intelectual de Emma sobre Adèle e a ascendência intelectual desta sobre seu namoradinho de adolescência.
O bonito, no modo como Kechiche perscruta o desenvolvimento de Adèle, é deixar que ela mantenha suas zonas de sombra, sua opacidade irredutível. 

Apesar de ela estar em cena durante as três horas de filme, saímos da sessão não apenas com a impressão de não conhecê-la plenamente, mas também com a sensação de que ela própria não se conhece. Parece estar o tempo todo procurando sua turma, sem chegar a encontrá-la de verdade – e vai se construindo nesse processo de busca. Nos momentos em que Adèle se sente plena (como no parque, no primeiro encontro com Emma), uma luz estourada inunda tudo, ofuscando os contornos da personagem.

azul cor mais quente
Azul é a cor mais quente, Abdellatif Kechiche (2013)
Igualmente notável é o frescor com que entra na tela o entorno da protagonista, quase à maneira de um documentário: a sala de aula, as boates GLS, a passeata política, a parada gay, os jantares em família, a escola maternal, a festa de artistas, tudo flui, tudo respira com uma naturalidade impressionante.

Sem cerimônia

Voltamos então às comentadas cenas de sexo entre Adèle e Emma. Militantes feministas e ativistas lésbicas protestaram, acusando o diretor de explorar os corpos das atrizes, oferecendo-os ao voyeurismo (supostamente masculino). Confesso que não entendo. Numa encenação em que tudo é filmado de muito perto e sem cerimônia – a ponto de os corpos dos atores quase sempre serem vistos parcialmente –, o que há de errado em mostrar as duas protagonistas se amando apaixonadamente na cama?

Em outros momentos Adèle aparece: limpando a boca com a mão ao comer um lanche; dormindo de boca aberta; chorando como uma criança, com catarro escorrendo do nariz; erguendo as calças pela cintura, feito uma menina caipira. Por que não poderia aparecer fazendo sexo com a mulher que ama? Omitir isso seria o cúmulo da hipocrisia. Edulcorar a cena com contraluzes, fusões, câmera lenta e música romântica seria, além de hipócrita, de péssimo gosto.

O incômodo causado pelas cenas de sexo de Azul é a cor mais quente, em particular pela mais longa, é análogo às reações suscitadas pela trepada quase explícita entre dois homens que está no centro de Tatuagem, de Hilton Lacerda. Nos dois casos, muita gente disse: “Isso não era necessário”. Ora, o que é “necessário” num filme?

Há algo errado num mundo que considera natural ver na tela corpos perfurados, mutilados, torturados, mas julga “desnecessária” uma cena de amor homoerótico.

Truffaut costumava dizer, talvez não totalmente de brincadeira, que o papel do diretor de cinema é “mostrar uma mulher bonita fazendo coisas bonitas”. Pois bem: Kechiche mostrou logo duas, fazendo a coisa mais linda que elas poderiam fazer. Quem não quiser ver, que mude de canal, ou melhor, de sala.

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LEIA O POEMA ''UM DIA'' DO LIVRO INÉDITO ODE TRISTE PARA AMORES INACABADOS DE AUTORIA DO POETA MARANHENSE FERNANDO ATALLAIA




Um dia


Um dia seremos inteiros

Um dia seremos neutros

Um dia seremos verdadeiros

Um dia seremos ao contrário

Um dia seremos nada



E por isso um dia seremos inteiros

Um dia seremos fartos

E por isso um dia famintos de terceiros



Como tudo em tudo estraga

Como todos em tudo vagam

Um dia seremos mais essa piada

Que a eternidade em nosso apego



O que importa é que um dia a vida rasga

A face antiga que escondemos em outra face

E um dia então seremos noite

E a tarde sombria em seu acoite

Já havia expurgado nossa sorte



Mas um dia essa praga da manhã clara e sufocante

Acabará em sua essência

E o resto de incompletude e inconstância que escondemos

Estará guardado para sempre


Um dia(...)





Fernando Atallaia, São José de Ribamar, maio de 2008.

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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

CULTURA BRASILEIRA: CONHEÇA A TESE DE DOUTORADO SOBRE A ''DEGENERAÇÃO'' DA MÚSICA


Tese de doutorado sobre a "degeneração" da música brasileira    

Estudo acadêmico parte do forró eletrônico para investigar o que muitos chamam de “degeneração” da música popular. "Luiz Gonzaga, por exemplo, embora seja o símbolo maior do forró e tratado com respeito pela maioria dos nordestinos, acaba sucumbindo a essa indústria cultural"

 
A música brasileira está decadente – sans élégance. Difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido uma frase como essa. Refine o gênero, e as frases continuarão a fazer sentido para muitas pessoas. O funk, o sertanejo, o forró, o pop, todas as músicas consumidas pelas massas não prestam.
Um estudo acadêmico parte do forró eletrônico, ouvido à exaustão em todo o Nordeste, para investigar o que muitos chamam de “degeneração” da música popular. O professor Jean Henrique Costa, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, obteve o título de doutor em Ciências Sociais com a tese “Indústria Cultural e Forró Eletrônico no Rio Grande do Norte”, defendida em março de 2012 na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

O pesquisador defende que o gênero preferido entre os nordestinos faz parte de uma engendrada indústria cultural, por meio da qual são criadas e sustentadas formas de dominação na produção e na audição desse tipo de música.

Segundo ele, quando uma banda de forró eletrônico recorre a canções de temática fácil, na maioria das vezes ligadas à busca de uma felicidade igualmente fácil, ela está criando mecanismos para a formação de um sistema de concepção e circulação musical. Nele, nada é feito ou produzido por acaso. Tudo acaba virando racionalizado, padronizado ou massificado.

aviões do forró música brasileira
Banda Aviões do Forró: música 'degenerada'
O ideal de uma vida festeira, regada de uísque, caminhonete 4×4 e raparigas (mulheres) é hoje um símbolo de status e prestígio para muitos dos ouvintes. Ninguém quer ficar de fora da onda de consumo. Numa das partes da pesquisa, Costa analisou o conteúdo das letras dos cinco primeiros álbuns da banda Garota Safada e descobriu que 65% das músicas falam de amor, 36% de sexo e 26% de festas e bebedeiras.

“Parte expressiva das canções de maior sucesso veicula a ideia de que a verdadeira felicidade acontece ‘no meio da putaria’, ou seja, nos momentos de encontros com os amigos nas festas de forró”, escreveu Costa. “Não se produz determinada música acreditando plenamente que se está criando uma pérola de tempos idos, mas sim um produto para agradar em um mercado competitivo muito paradoxal: deve-se ser igual e diferente concomitantemente.” Ou seja, a competitividade do mercado induz à padronização dos hits.

“O que move o cotidiano é isso mesmo: sexo, amor, prazer, diversão. O forró e quase toda música popular sabem muito bem usar desse artifício para mover suas engrenagens”, explicou Costa. “Não é por acaso que as relações sexuais são tão exploradas pelas canções de maior apelo comercial a ponto de se tornarem coisificadas à maneira de clichês industriais.”

REFERENCIAL TEÓRICO

Outros gêneros musicais também recorrem a estratégias semelhantes. O forró eletrônico consegue se diferenciar dos demais ao dar uma roupagem de “nordestinidade”, criando a identificação direta com o seu público. Mas o objetivo final de todos é proporcionar diversão. O problema, segundo Costa, é que “se vende muito pão a quem tem fome em demasia”.

Costa baseou sua pesquisa no referencial teórico de Theodor W. Adorno, um dos ideólogos da Escola de Frankfurt. O pesquisador procurou atualizar o conceito de indústria cultural a partir da constatação de que as músicas do forró eletrônico são oferecidas como parte de um sistema (o assédio sistemático de tudo para todos) e sua produção obedece a critérios com objetivos de controle sobre os efeitos do receptor (capacidade de prescrição dos desejos).

O pesquisador recorreu ainda a autores como Richard Hoggart, Raymond Williams e E.P. Thompson para abordar o gênero musical a partir da leitura dos estudos culturais (a complexa rede das relações sociais e a importância da comunicação na produção da cultura), que dialogam com outro conceito anterior, o de hegemonia, de Antonio Gramsci. Pierre Bourdieu também serve de referencial teórico.

Ao amarrar essas teorias, o pesquisador argumenta que o público consumidor de músicas acaba fazendo parte de esquemas de consumo cultural potentes e difíceis de serem contestados. Neles, até o desejo acaba sendo imposto. Em entrevista a FAROFAFÁ, Costa exemplifica esse fato com a atual “cobrança” pelo consumo de álcool, onde a sociabilidade gira em torno de litros de bebidas.
“O que se bebe, quanto se bebe e com quem se bebe diz muito acerca do indivíduo. O forró não é responsável por isso, mas reforça.” Para o pesquisador, o consumo de bebidas se relaciona com a virilidade masculina, que, por sua vez, se vincula à reprodução do capital.

“Não reconheço grande valor estético (no forró eletrônico), mas considero um estilo musical que consegue, em ocasiões específicas, cumprir o papel de entreter”, afirmou. O pesquisador ouve todo tipo de música (samba-canção, samba-reggae, rock nacional dos anos 1980 e 1990, bolero, tango, entre outros), mas sua predileção é por nomes como Nelson Gonçalves e Altemar Dutra.

Para cobrir essa lacuna sobre o gênero que iria pesquisar, Costa entrevistou nomes como Cavaleiros do Forró, Calcinha de Menina, Balança Bebê eForró Bagaço. O seu objetivo foi esquadrinhar desde uma das maiores bandas de forró eletrônico do Rio Grande do Norte até uma banda do interior que mal consegue fazer quatro apresentações por mês e cobra em torno de R$ 500 por show.

É dentro desse contexto de consumo de massa de hits que nascem e morrem, diariamente, pelas rádios e carrinhos de CDs piratas, que prevalece o forrozão estilo “risca a faca” e “lapada na rachada”, para uma população semiformada (conceito adorniano de Halbbildung), explica Costa. Sobra pouco ou nenhum espaço para nomes consagrados do gênero.Entre os extremos de quem ganha muito e quem mal consegue sobreviver com o forró, o professor constatou que o sucesso é um elemento em comum, e algo difícil de ser obtido. Depende de substanciais investimentos financeiros e também do acaso – ter um hit pelas redes sociais ajuda. É por isso que Costa afirma que Aviões do Forró e um forrozeiro tecladista independente estão em lados completamente opostos, mas ainda têm algo basilar em comum: a indústria cultural.

Luiz Gonzaga, por exemplo, embora seja o símbolo maior do gênero e tratado com respeito pela maioria dos nordestinos, acaba sucumbindo a essa indústria cultural. “A competição é desigualmente assimétrica para o grande Lua. O assum preto gonzagueano, nesse sentido, bateu asas e voou.”
Costa diz não ser um pessimista ou só um crítico ferrenho do forró eletrônico.

Tampouco que tem pouca esperança de que a música brasileira seja apenas uma eterna engrenagem da indústria cultural. Ao contrário, é dentro dela própria que ele vê saídas para o futuro da produção nacional. “Se vejo alguma possibilidade de mudança pode estar justamente nesses estúdios caseiros de gravação de CDs, nas bandas de garagem, no funk das periferias, no tecnobrega paraense. Não afirmo que a via é essa, mas que é um devir, uma possibilidade que pode não ir para além do sistema, mas minar algumas de suas bases”, concluiu.


Confira aqui a Tese de Doutorado na íntegra


Eduardo Nunomura – Farofafá, CartaCapital

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quarta-feira, 10 de julho de 2013

POEMA ''ODE FUTURISTA PARA ANDY BROWN'' DE AUTORIA DO POETA MARANHENSE FERNANDO ATALLAIA



Poesia sempre!



Leia na íntegra o poema ''Ode futurista para Andy Brown'' do livro inédito Ode Triste para Amores Inacabados de autoria do poeta e escritor ribamarense Fernando Atallaia

Ode futurista para Andy Brow


Eu tenho um sonho

Daqueles que saltam à vista a procura de futuros


Um sonho líquido na paisagem densa
Ali na janela sem crepúsculos


Como se ela adentrasse casas como se ela inaugurasse um sol



 
Este sonho de vê-la nua entre as nuvens do pensamento
Eu tenho um sonho derramado entre as ancas de Andy Brown
Aquela pele em santuário me guardando num espaço reclamante

De um pulo ululante aos conchavos dos poros reticentes

Um sonho com Andy Brown vê-la tocar noites fazendo de um açoite um dia através

Um paiol de caracóis além

Águas fatídicas nunca mais! Que venha o tempo de Andy Brown

Sonho de carne e osso em curvas de luxúria da chama ao pescoço 

Sim! Eu tenho um sonho

Acordar cantando a sedenta dama das línguas de anteontens

A linda virgem de eternidades recolhidas

 A minha linda meretriz primeira e última esponsal

Eu tenho um sonho!

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segunda-feira, 6 de maio de 2013

MÚSICA INDEPENDENTE NO BRASIL: MOVIMENTOS


Música independente no Brasil: a Vanguarda Paulista


Na virada da década de 70 para os anos 80, o movimento da música independente tornou-se mais forte no Brasil. O Teatro e Gravadora Lira Paulistana, em São Paulo, foi o epicentro desse fenômeno. A movimentação, no entanto, não se resumiu a grupos e artistas desvinculados das grandes gravadoras, mas também ao surgimento de uma nova estética musical, que foi denominada de Vanguarda Paulista.

O Lira Paulistana abrigou, ao mesmo tempo, novas bandas paulistas que ajudaram na renovação do pop-rock brasileiro dos anos 80, como Titãs e Ultraje a Rigor, e as experimentações da Vanguarda Paulista, encabeçadas por Itamar Assumpção, Premeditando o Breque e Rumo. Algumas propostas vanguardistas desses artistas trabalharam nos limites entre a música erudita contemporânea e a canção pop. Como no caso de Arrigo Barnabé, com suas incursões pelo dodecafonismo e pela atonalidade misturados a elementos do rock. Arrigo Barnabé inaugurou essa nova estética com o lançamento do disco independente “Clara Crocodilo”, em 1980.

Clara Crocodilo
O álbum "Clara Crocodilo",
de Arrigo Barnabé, inaugurou
o movimento da Vanguarda Paulista

Desde então até 1985, houve uma intensa produção de música independente sob o rótulo da Vanguarda Paulista. Apesar de não haver uma uniformidade estética nela, alguns elementos caracterizaram os trabalhos produzidos nesse período da música alternativa em São Paulo. O predomínio da fala nas canções, ou de um cantar falado, é uma marca do grupo Rumo e de alguns trabalhos de Itamar Assumpção. No caso do Língua de Trapo e do Premeditando o Breque, a principal característica é o humor, com letras irônicas e sarcásticas cantadas sobre uma diversidade de sonoridades, do heavy metal ao samba-de-breque. Em toda a produção da chamada Vanguarda Paulista, no entanto, um elemento comum é a crítica, principalmente cultural e política.

Itamar Pretobrás
Capa do álbum "Pretobrás", de Itamar Assumpção,
um dos principais nomes da Vanguarda Paulista


Assumidamente alternativo e com intenções de conduzir uma renovação na canção popular jovem, a primeira desde o tropicalismo no final dos anos 60, a Vanguarda Paulista não se popularizou além do circuito artístico e universitário de São Paulo. Nascido no underground, ele foi ao longo dos anos 80 se diluindo sem virar um sucesso comercial, naquele momento alcançado pelos grupos que fizeram a renovação do pop-rock brasileiro. 

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domingo, 18 de novembro de 2012

OPINIÃO CULTURAL: ALMANDRADE

 
O descaso pela arte  




"Na época atual, a fatalidade de toda e qualquer arte é ser contaminada pela inverdade da totalidade dominadora."
 
Adorno



Por Almandrade


 
 
A arte como um trabalho intelectual que amplia a experiência que o homem tem do real e do imaginário, se opõe ao trabalho alienante da sociedade moderna. Por outro lado, no meio de arte convivem compromissos e interesses alheios à própria arte; suas condições de produção se encontram dentro de um campo social e político, sujeito a um conjunto de pressões. O Estado, os patrocinadores e o mercado, visando interesses imediatos, privilegiam, muitas vezes, artistas cujas obras pouco acrescentam ao mundo da inteligência.
 
 
No espetáculo montado pela política, tudo se confunde, tudo passa pela ideologia do poder e pela estética do espetáculo, como: a educação, a economia, a ecologia e os discursos políticos. Nesse palco, a cultura foi relegada a uma coisa mundana, uma espécie de conhecimento ornamental que serve à mídia e ao jogo social; a arte perdeu sua singularidade e suas qualidades que a colocavam acima das banalidades do cotidiano, deixando de ser o olhar que interroga, que transforma cores, texturas, formas, experiências sensoriais em meio de conhecimento. Nesta relação cultura e poder, insere-se a "crise da arte", onde o poder tem prevalecido diante da pesquisa estética.
 
 
Enquanto trabalhos que têm alguma importância pela pesquisa neles investidos, passam despercebidos trabalhos diluidores da informação, reproduções de clichês divulgados pela mídia são celebrados pelos consumidores de decorações e divertimentos culturais. Uma sociedade sem demandas culturais acaba fazendo da arte uma atividade menor. O cotidiano da política e da economia faz o discurso que se infiltra em todos os espaços, expulsando a cultura para a periferia dos interesses da cidadania. Os artistas, que mesmo sem construírem uma obra, tem os seus reconhecimentos garantidos pela indústria da publicidade, se sobrepõem àqueles que tem uma vida dedicada à pesquisa e ao trabalho de edificar uma linguagem, contribuindo para a demolição da ética e do pensamento crítico.
 
 
Sem uma consciência crítica e sem uma convicção ética, artistas, críticos, intelectuais, administradores culturais inventados pela mídia e pelo poder político tomam posição e decidem contra a autonomia e a independência do trabalho de arte. Promovem e divulgam os bens culturais em proveito próprio, para se sustentarem de forma privilegiada numa relação de poder. – Nada mais paradoxal, por exemplo, do que essas leis de incentivo a cultura. Por que incentivar a cultura se ela é um componente essencial para o enriquecimento da sociedade? Antes de ser uma questão de lei, a cultura é uma questão de sensibilidade e de cidadania.
 
 
Há um desinteresse geral pela cultura que ocupa um lugar cada vez menos importante nos discursos do cotidiano. Para ser artista, antes de mais nada, é preciso um tráfego de influências pessoais, acesso à mídia e aos patrocinadores, que fazem da arte um produto incapaz de atribuir um sentido à existência da sociedade. E quem realmente patrocina a arte? – "Os contribuintes pagam aquilo que as empresas recuperam através de isenções fiscais pelas suas doações, e somos nós que verdadeiramente subvencionamos a propaganda." (Hans Haacke). Numa sociedade comandada pela economia, tudo se resume à lei da oferta e da procura.
 
 
A arte, burocraticamente falando, é mais uma imagem carente de sentido que divulga um certo prestígio social e econômico, e menos um meio de conhecimento indispensável para o homem contemplar o mundo. Se a obra de arte é expressão de uma sociedade, testemunho de um tempo, de um estágio de conhecimento, renunciar à sua inteligibilidade é renunciar à história.
 
 
A política, por sua vez, apropriou-se da cultura e fez dela um verniz para animar ou dar um polimento ao discurso político. A arte perdeu sua inocência, ela agora é objeto do mercado, do Estado e de outras instituições que desconhecem seus mecanismos de produção e sua história. Se os partidos políticos que falam de cultura em seus programas de campanha querem fazer alguma coisa pela cultura, não deveriam fazer coisa alguma, e sim, devolverem aos intelectuais, aos artistas, a quem trabalha diretamente com a cultura, o poder de decisão e o comando do processo cultural. É preciso devolver à arte seu território perdido.
 
 
Quem atualmente exerce o poder sobre o destino dos bens culturais, trabalha, direta ou indiretamente para o mercado, ou é burocrata de carreira que pouco entende das linguagens artísticas e suas leituras. Acabam desprezando os seus valores à serviço do senso comum. Muitas instituições que lidam com a arte, sem recursos econômicos e sem um corpo técnico ligado à área, perderam a importância e a autonomia, quando não são agências de eventos irregulares sem um projeto definido. A mídia dominou a cultura e o artista deixou de lado a indagação da linguagem da arte, abandonou a solidão do atelier, para se tornar um personagem público do teatro social. E a proliferação de um produto designado como arte e do discurso estético, sem a arte, pode significar o desaparecimento da própria arte.
 
 
 
Almandrade é artista plástico, poeta e arquiteto.
 

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